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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Cronicas de Abdenego Nascimento

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 Por: Abdenego do Nascimento

De muitas frases que li nos últimos dias, a  frase que mais me impressionou foi escrita pelo Comando Vermelho em sua discorrência quando da criação de seu estatuto quando diz:  "O crime nos dá a convicção de que nossas bravuras são pelo progresso, por nosso esforço e mérito. Farão de nós vitoriosos. Pois nós somos o lado certo da vida errada, nós somos o bem do mal".
Frisei o Comando Vermelho e agora cito Jean Pierre Dupuy, filósofo da Escola Politécnica de Paris e da Universidade de Stanford que escreveu em um dos seus livros: "Sempre o Mal esteve relacionado com as intenções de quem o comete. Os horrores do século 20 deviam nos ter ensinado que isso é uma ilusão. O absurdo é que um mal imenso possa ser causado por uma completa ausência de malignidade, que uma responsabilidade monstruosa possa caminhar junto com uma total ausência de más intenções. A catástrofe ecológica maior com que nos deparamos e que põe em perigo toda a humanidade será menos o resultado de um mal dos homens ou mesmo de sua estupidez. Terá sido mais por uma ausência de pensamento.  Hoje, um sem número de decisões de toda ordem, caracterizadas mais pela miopia do que pela malícia ou pelo egoísmo, compõem um todo que paira sobre elas, segundo um mecanismo de egocentrismo; absurdo que absorve toda a malícia do querer se dá bem a qualquer preço. O mal não é nem moral nem natural. É um 'mal' do terceiro tipo, que chamo de 'mal sistêmico'."
Mas, afinal, o mal é o bem ou o bem é o mal?  Em décadas atrás era sabido que o mal era o capitalismo e o bem o socialismo.
Hoje muitos intelectuais, os “bonzinhos”, os cafetões da miséria, os santos oportunistas, estão em pânico. Se não houver um mal claro, como seremos 'bons'? Nos dias atuais, há uma reviravolta ética, um cinismo que nos acostuma com o inaceitável. E também renasce, com descaramento, a boçal divisão guerreira secular entre "esquerda" e "direita". Ninguém agüenta conviver com singularidades. Há uma fome bruta por "sociedade transformada e justa". Mas, como escreveu um certo pensador do século XVII: "Hoje não há mais o pensamento de equipe, do todo; infelizmente só temos o singular e o mundial".
Mas, quem é o mal? o assaltante faminto ou o assaltado rico? Ou nenhum dos dois? Como praticar o bem? Apenas se horrorizando com o mal? Como inventar um paradigma do bem?
O pior é que vemos o Mal  sempre no outro. Nunca somos nós. Ninguém diz de fronte alta: "Eu sou o mal!" Ou: "Muito prazer, Diabo".
Como disse Hannah Arendt, na frase que virou lugar comum: o mal ficou banal. Quem é o planejador do mal? Será se o Japão vai parar de produzir robôs, para empregar a mão de obra faminta da Somália? Quem controla o mal? A Al-qaeda, o Putin, o Assad? Ou eles são agentes de um "mal" histórico-concreto inevitável? E cito mais uma frase filosófica de um certo francês, tão criticado pelas academias porque tinha imaginação e brilho: "Hoje, contra o mal, só temos o fraco recurso dos direitos humanos".
Talvez um caminho seja, como escreveu Louis Dumont, nos Ensaios sobre o Individualismo: "O bem deve englobar o mal, mesmo sendo seu contrário".
O bem está virando um luxo e o mal uma necessidade social. Sem participar do mal, não conseguimos viver. Como ser feliz olhando as crianças empilhadas na Síria, no Iraque, nos grotões do Brasil feudal: Maranhão, Alagoas, etc.? Temos de fechar os olhos?. "Sou feliz se conseguir manter os olhos fechados?." Ser feliz é não ver?. Como praticar o bem? Apenas se horrorizando com o mal? Não vale ficar "tristinho", nem lançar apelos à razão ou à caridade. "Eu fiz tudo para ser um homem de bem. Serei um canalha?" Todos se acusam, todos querem ser o bem. Durante a ditadura, todos éramos o bem. O mal eram os políticos. Acabou a dita e a “dura” as "vitimas"  então,  pilharam o Estado. O que é o "bem" hoje? É lamentar com certo prazer uma impotência? é um grito melancólico? é um elogio da morte? Ou o bem é ser calculista, frio? É uma identificação mecânica com as desgraças ou um desejo "protestante" de melhorar na vida?
O meu pensamento não tem nada a ver com revolta, mas,  aspira à totalidade. O bem será um desejo de harmonia, de único, é suportar heroicamente o múltiplo, o incontrolável, a impotência "democrática"? O bem hoje é aceitar os limites do "possível histórico" ou persistir em utopias, apenas pelo prazer de se sentir acima da insânia da vida? Diante a isso vejo que estamos pensando com o corpo, queremos que o mundo seja um "todo harmônico", como o nosso organismo. A idéia de "fragmentário" gera angústia, porque lembra a morte. Por isso, a aceitação do fragmentário se re-ergue em nova totalidade e começa tudo de novo. A democracia é muito complicada, lenta e está deixando todo mundo impaciente - somos todos totalitários e ao denunciar o Mal, vivemos dele. Eu ganho a vida denunciando o que eu acho o "mal". Muita gente é assim, e praticando o Mal.
No Brasil, o grande Mal não tem importância. O perigo aqui é o pequeno mal, entrelaçado nos encostamentos da vida social, nos aparelhos sutis do estado, nos seculares dogmas políticos de décadas passadas, nos crimes que são lei. O mal aqui está nos pequenos psicopatas que, quietinhos, nos roem a vida. Aqui o grande canalha serve para camuflar os pequenos, que são os grandes canalhas. O mal do Brasil não está na infinita crueldade dos torturadores ou das elites sangrentas, está mais na sua cordialidade. No Brasil, o mal nos engana. Aqui, o perigo é o Bem.
Se entenderem bem as minhas elocuções neste contexto, devem ter percebido que na analogia, deixei bastante claro que a minha intenção é convidar você a tirar as suas próprias conclusões e assimilar o BEM e/ou MAL e rever para si o que praticas no dia-a-dia.
Então afinal, você pratica o bem? Ou o Mal? Então digas quem tu és.
                                  Abdenego do Nascimento
                                Nascido em Lago Verde –  MA
                                                                                                                     Filho de um lavrador e de uma quebradeira de coco babaçu; sempre estudou em escola pública; Formação:
Aux. técnico em contabilidade; Técnico em eletricidade;
 Magistério; Bacharel em filosofia; Graduado em tecnologia de processos gerenciais, (administrador).


Profissão: Funcionário público federal. 

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